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As Aparições de Fátima-I Parte

Fátima fez parte de um novo catolicismo mais popular, protagonizado por uma Igreja muito diferente da Igreja do século XIX e resultou de um novo ambiente político que possibilitou um consenso em torno da religião, depois de uma época de separação de poderes e da perseguição religiosa. Acabou por ser uma resposta à maçonaria que defendia o “livre-pensamento” e em que quase todos os chefes republicanos estavam filiados.
Nos anos 30, a Igreja e o Estado irão usar o fenómeno contra um inimigo comum: o comunismo. O Estado Novo não sendo tipicamente fascistas, é igualmente ultra-conservador, clerical e anti-comunista, transferindo a moral cristã para o plano político tornando-a nacionalista.

 Salazar instrumentalizou a Igreja como suporte da sua própria autoridade moral e estabeleceu o Estado como o exercício duma função sagrada e de doutrinação da sociedade portuguesa, desmoralizando os críticos e opositores. Mas Salazar retirou à Igreja qualquer pretensão de poder, pois apenas ele era o poder. Em 1938, o cardeal-patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, declara: “Desde que Nossa Senhora de Fátima apareceu no céu de Portugal uma especial bênção de Deus desceu sobre a terra portuguesa”. As consagrações de Portugal ao Sagrado Coração de Jesus, em 1928, e ao Imaculado Coração de Maria, em 1931, reflectem bem a união entre a Igreja e o Estado Novo. Em 1945, escreve ao seu amigo dizendo-lhe que é “quase um ungindo de Deus“; Eleva ainda mais Salazar quando lhe envia uma mensagem de Lúcia em que esta afirma ser “Salazar o escolhido por Deus para continuar a governar a nossa Pátria…”
Tentando escapar à tentação da análise simples da verdade e da mentira ou de ver Fátima unicamente como uma história saída do inconsciente ou da necessidade religiosa, ao analisar-se os documentos, podemos facilmente constatar que os acontecimentos que envolveram as crianças e o fenómeno testemunhado por milhares de pessoas nos dia 13 de Outubro de 1917, conduzem a óbvias contradições e omissões no percurso de todo o processo e que as “Memórias” da Irmã Lúcia coroam de forma notória.  O estudo dos acontecimentos, não permite concluir que Senhora vestida de branco apareceu na Cova de Iria.  O mais fascinante é que a própria Igreja não contesta muitas das conclusões, até porque foi quase obrigada a declarar o fenómeno de Fátima como uma verdadeira aparição. As ” aparições marianas”, como revelações e cultos privados, não fazem parte de nenhum dogma da Igreja Católica. A fé católica romana assenta no dogma da Revelação cristã, pelo que à luz teológica as chamadas “aparições” relevam unicamente uma manifestação de fé e são meras manifestações discutíveis no quadro dogmático, pelo que nenhum católico é obrigado a aceitar o fenómeno  como irrefutável de uma presença física  da Virgem Maria.

 

 

As Aparições

 Os encontros da Senhora com as crianças iram suceder entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917. Se analisarmos os primeiros depoimentos das crianças em 1917, são marcados pela espontaneidade. Francisco, nunca ouviu nada e tanto ele como Jacinta, nunca disse uma palavra que fosse à Senhora. A Senhora fala sempre no singular voltada para Lúcia e pede-lhe para rezar e que na última das suas aparições dirá quem é e fará um milagre que fará com que todos acreditem. A Senhora também pede que aprendam ler e que levaria muito em breve para o céu o Francisco e a Jacinta. O interrogatórios são levados a cabo pelos padres que com muita habilidade na sugestão perguntaram às crianças se conheciam a história de La Salette, ou o que “veste a imagem da capela onde costumam ir à missa” e acabariam por induzir nos videntes perguntas sugestivas, como: “o que fazias tu quando viste Nossa Senhora pela primeira vez?.”
Nos antigos documentos existe a referência a uma quarta vidente, chamada Carolina Carreira que teve um encontro com “uma criança que assemelhava ter uns 9 ou 10 anos e que se comunicava sem falar”. A ignorada Carolina, descreveu ter recebido uma espécie de “ordem” no interior da sua cabeça, quando observou um “anjo de cabelo louro” com pequena estatura nas imediações da azinheira, que acompanhava a descida da tal senhora luminosa.
No dia 13 de Maio de 1917, Lúcia dos Santos e os irmãos Francisco e Jacinta Marto, são surpreendidos por uma explosão de luz e repararam numa imagem sobre uma pequena azinheira. Ficam aterrados com a visão, mas a Senhora tranquilizou-os dizendo-lhes, que não tivessem medo porque não lhes fazia mal e que viria aquele mesmo local durante 6 meses e no fim lhe diria quem era e o que queria.
No relato original de 1917, Lúcia relata à mãe que viu uma “mulherzinha bonita” e quando lhe perguntou: “quem é vossemecê“? Ela apontou o céu. “Depois disso, começou a desaparecer lentamente, primeiro pela cabeça, braços e o resto do corpo até aos pés que foi a última coisa a desaparecer.” A Senhora não se identifica e promete fazê-lo 6 meses mais tarde, mas a notícia transbordou e todos passaram a acreditar que a Mãe de Jesus era visita frequente. A força da religiosidade popular, de um povo angustiado pela guerra e ávido de sobrenatural tornara-se um indomável terramoto.
Lúcia pergunta à Senhora sobre duas meninas que já haviam morrido. A Senhora terá respondido que uma delas estava no céu e a outra no Purgatório até ao fim do mundo. Perguntou às crianças se queria oferecer-se a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar em acto de reparação pelos pecados com que ele é ofendido, e de súplicas pela conversão dos pecadores. Disse-lhes ainda que teriam muito que sofrer mas a graça de Deus seria o seu  conforto.  Acrescentou: “Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra“.
As crianças,  disseram que sim, mas quem poderá acreditar que a mãe de Jesus Cristo tivesse dito tais coisas? Que divindade é esta que, em vez de anunciar combater o sofrimento, vem catequizá-las para que sofram ainda mais?O pormenor relativo ao final da guerra foi sempre muito confuso para Lúcia e irá revelar-se um verdadeiro embaraço, uma vez que o irá alterando a história ao longo dos anos.
A  aldeia dividiu-se e muitos não acreditavam na história da Senhora no cimo de uma azinheira. Por alguma razão, Lúcia pediu sempre à Virgem um “milagre” para a população acreditar. No entanto, na época, o terror que se respirava nos meios populares e rurais estava presente na vida familiar e religiosa. As pessoas viviam apavoradas com a ideia de pecado e do inferno, completamente possuídas pelo medo da morte e da ideia de sacrifício perante um Deus castigador. O desejo maior das crianças era irem para o céu, pois essa seria a única maneira de escapar ao fogo e a criaturas horrendas.
Entre 1935 e 1941 Lúcia sob a orientação da Igreja irá publicar um livro de memórias. É um livro surpreendente com pormenores nunca antes revelados. Lúcia usa uma linguagem de Igreja, anti-comunista e anti Estado laico coincidente com o ambiente ideológico. A transformação de Lúcia talvez esteja ligada à sua reclusão em conventos em que passou a ser visitada por várias entidades dos céus. Lúcia relata, pela primeira vez, a visão  do “Anjo de Portugal” ou da Paz, descrito como uma estátua de neve, que os raios do Sol tornavam transparente, que também terá surgido envolto em luz aos três pequenos pastores em  1915 e 1916.
Lúcia fala ainda em uma oração que a Senhora lhes ensinou. Uma oração à santíssima Trindade que constitui algo sem sentido sob o ponto de vista teológico, pois vai até ao cúmulo de dar  comunhão às crianças. São tantos os disparates em torno das aparições que por si dariam um livro.
Na aparição de Julho, a Senhora, mostra-lhes o inferno: “Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para os salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz”.
Em todos os momentos, a partir daquele dia, a visão do inferno persegue as duas crianças, aterroriza-as, obriga-as a fazer sacrifícios pela conversão dos pecadores.  No livro das “Memórias”, Lúcia refere que os 2 irmãos esfregavam urtigas nas mãos, eram capazes de passar dias inteiros sem comer, davam a merenda às ovelhas, não bebiam água mesmo em pleno mês de Agosto, andavam todo o dia e mesmo durante o sono, com uma corda amarrada à cintura, até fazerem sangue. Escreve Lúcia nas suas memórias uma conversa que teve com Jacinta:
Um dia, a Jacinta dizia-me: quem me dera que os meus pais fossem como os teus, para que esta gente também me pudesse bater, porque assim tinha mais sacrifícios para oferecer a nosso senhor.” Outras vezes, dizia: – “Nosso senhor deve estar contente com os nossos sacrifícios, porque eu tenho tanta, tanta sede! mas não quero beber; quero sofrer por seu amor.
Lúcia escreve: “Francisco sofria com uma paciência heróica sem nunca deixar escapar um gemido, nem a mais leve queixa. (…)” Um dia Jacinta mandou-me chamar e disse-me: “Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito”.
É possível que os prolongados jejuns os tenham enfraquecido a ponto de sucumbirem à epidemia que varreu a Europa. De acordo com As Memórias de Lúcia, Jacinta  terá recebido ainda algumas aparições de Nossa Senhora que lhe mostrou o papa em agonia, visões de guerra, miséria e sofrimento humano. A Senhora também lhe anunciou que levaria Francisco e ela para o céu.  O cónego Manuel Nunes Formigão lamentaria que, quando Jacinta adoeceu, não se tivesse conseguido encontrar uma “pessoa abastada” para a acolher, embora depois da sua morte se “mostrassem solícitas em lhe prestar homenagem”.

 


A 4.ª aparição dá-se a 19 de Agosto, uma vez que as crianças haviam sido presas por ordem do Administrador de Ourém e ameaçadas de serem queimadas num caldeira com azeite a ferver. Apesar do terror a que foram sujeitas, as crianças mantiveram a  sua história  e acabaram por ser libertadas. Os relatos da aparição do dia 19 em “Valinhos” revelam muitas atrapalhações. O fenómeno dá-se como das vezes anteriores com a diminuição de temperatura, ofuscamento do Sol, ouviu-se um trovão, sempre seguido de um relâmpago,  uma pequena nuvem branca a pairar sobre a azinheira. Lúcia irá apresentar 3 versões da sua visão: 1917, 1922 e 1941.
Segundo Lúcia que escreve nas suas memórias: “a santíssima virgem recomendou-nos, de novo, a prática da mortificação, dizendo, no fim de tudo: rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.” A Senhora pede aos videntes que rezem a “Nossa Senhora do Rosário”.
Que mensagem está subjacente aqui? Mas afinal quem é esta Senhora? Não é ela a Senhora do Rosário?
A Senhora faz estranhas observações relativamente às pessoas que prenderam Lúcia em Ourém:
Se não tivessem abalado contigo para a Aldeia seria o Milagre mais conhecido; havia de vir São José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um Anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda.”
Jesus Cristo é de novo menino? Porque a referência “benzer”, quando a bênção é linguagem de igreja ? Novamente a Senhora do Rosário? Não são uma e a mesma senhora? Que anjos são estes?   Não existem anjos, nem Céu. Anjos em Teologia significa mensageiros.
Depois, a Senhora entra num estranho diálogo com Lúcia sobre o dinheiro para a construção de andores e da festa. Lúcia pede à Senhora para curar doentes, no entanto, a Senhora diz-lhe que só dali a um ano é que poderia curar e apenas a alguns.
Mas porque é que só pode curar alguns e não todos? e porque 1 ano?
Na 5.ª aparição, uma multidão entre 15 e 20 mil pessoas presenciou o súbito refrescar do clima, o empalidecer do Sol – que nessa ocasião escureceu tanto que se podiam ver as estrelas –, e uma espécie de chuva de pétalas ou flocos de neve. No contexto científico, essa chuva apelidada de “cabelos de anjo” ou  fibralvina, uma substância registada muitas vezes quando são avistados Objectos Voadores Não Identificados sobrevoando terrenos a baixa altitude. O mais espantoso dessa aparição foi o globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente para o poente, e depois em sentido contrário.
Nas Suas Memórias,  Lúcia vai acrescentado mais pormenores e declara que a Senhora anuncia que na sua última aparição “Virá S. José e o Menino Jesus…a senhora do Rosário e a senhora das Dores e Nosso Senhor”. Em outra versão, afirma: “Em Outubro virá…Nosso Senhor, nossa senhora das Dores, e do Carmo, S. José com o Menino Jesus…”

Afinal se vinha o menino Jesus, quem é este “Nosso Senhor”?

 

 A 13 de Outubro, no que se traduziu na mais espectacular de todas as aparições e que ficou conhecida pelo “Milagre do Sol”. A aparição irá ter uma intensa cobertura jornalística, incluindo a reportagem fotográfica. A rápida propagação da história por todo o país, arrastando gente “de todas as classes sociais, conferiu ao fenómeno uma dimensão sem precedentes.
Nesse último encontro, Lúcia faz a  mesma pergunta que fazia sempre:
– “Que é que Vossemecê me quer?”
 Mais uma vez, Lúcia fala no singular com a Senhora, mesmo estando acompanhada pelos primos. Seria de esperar uma revelação fantástica, mas a “Senhora”pede a Lúcia a construção de uma capela e que tinha de rezar muito. Promete que a guerra iria terminar naquele dia e os militares voltariam em breve para as suas casas. Infelizmente a Senhora mentiu, pois a guerra ainda duraria mais 1 ano e os militares portugueses que sobreviveram regressariam vergonhosamente a casa a pé. Lúcia pede à Senhora pelos doentes e pelos pecadores, mas a Senhora apenas disse que curaria alguns e o povo teria de rezar muito a “Nosso Senhor que já está muito ofendido!” “Se o povo se emendar, acaba a guerra e, se não se emendar, acaba o mundo.”
Ainda me quer mais alguma coisa? – Perguntou Lúcia
– Já não quero mais nada
Depois, ol hou para o Sol e que viu São José apenas da cintura para cima vestido de branco à esquerda do Sol fazendo cruzes com a mão direita e o Menino Jesus vestido de encarnado sentado no seu braço esquerdo. Depois, S.José desaparece e apareceu “Nosso Senhor” com barbas pequenas à direita do Sol com vestido e com uma capa. Lúcia não lhe viu as mãos nem o cabelo. “Ao lado de Nosso Senhor estava uma Senhora vestida de branco, com um manto azul sobre a cabeça em pé ao lado direito. Ambos tinham resplendor amarelo, não tinha menino. Junto a S. José viu outra Senhora que estava ao lado direito do Sol, toda vestida de encarnado, o manto era azul enfeitado ao pescoço; tinha as mãos na cintura com os dedos entrelaçados, desapareceu com S. José. A Senhora da azinheira vinha vestida de branco exactamente como das outras vezes; não vi nem menos, nem mais; a saia julgo que era curta como das mais vezes”

 

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About João Fernandes

Licenciado em Relações Internacionais; Business Manager da Webmind; Blogger e múltiplos interesses nas áreas das ciências, tecnologia, História e política. Trabalha como freelancer em websites e publicidade.

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